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O que Baco me Sopra
Saulo Cachaça

Aproveitei o final de semana para proceder a um ritual de Iluminação Etílica. Estes episódios, que já se tornam cada vez mais recorrentes, me transmitem de forma cifrada e misteriosa algumas verdades.

 

Pela manhã, ao acordar, encontrei digitado em meu PC um texto que Baco me soprou durante o estro vínico.

 

Seu significado me é ignoto.

 

Evoé Baco!

 

 

RELIGIÃO, ALGORITMO E VERDADE

 

Lucius, ao completar trinta anos, tomou para si a tarefa de espalhar a verdade sobre a existência e tudo mais que há além dela.

 

Nascido Iluminado, como o chamavam em sua aldeia, Lucius conhecia os segredos do mundo físico e metafísico, praticava prodígios e esclarecia com frases curtas de conteúdo misterioso as questões dos sábios que vinham de longe e dos anciãos patriarcas de sua tribo.

 

Tomando a esmo um rumo qualquer, Lucius deparou com Pantríntepes, escravo acorrentado aos remos de uma galé.

 

- Este, - determinou profeticamente - será meu primeiro discípulo e mártir da verdade! - e subiu a bordo da galé, indo ter com Pantríntepes.

 

Diálogo de Lucius, o Nascido Iluminado  e Pantríntepes, o escravo acorrentado aos remos da galé:

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 Escrito por Saulo Cachaça às 10h31
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Lucius:

 

- Pantríntepes, sua agonia é passageira neste mundo de privações materiais! Não vês que há um Deus, pois se tens uma idéia de Deus, esta idéia é, já em si, prova da existência dele?

 

Pantríntepes:

 

- Água...

 

Lucius:

 

- A sede que sentes é provocada por teus sentidos, se sentes, pensas, se pensas, existes!

 

Pantríntepes:

 

- Água...

 

Lucius:

 

- Vede, Pantríntepes, se há um Deus, ele é bom, se não, não seria Deus. Se é bom, tudo que faz tem um propósito bom: tua privação é parte desta bondade divina!

 

Pantríntepes, pondo as mãos nos ouvidos e fazendo sinal ao centurião da galé para que toque os tambores:

 

- Chega...

 

Tambor:

 

- Bum, bum. Bum, bum.

 

Lucius:

 

- Escuta, Pantríntepes, o som do tambor é como a falta de fé! Esconde a verdade com sua...

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 Escrito por Saulo Cachaça às 10h30
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Pantríntepes arrebenta com violência o crânio na trave do remo da galé e acaba com sua agonia.

 

Lucius não esmorece e passa ao próximo acorrentado, Axastémenes.

 

Diálogo de Lucius com Axastémenes:

 

Lucius:

 

- Axastémenes, vede que Pantríntepes preferiu  a inexistência física para privar-se da verdade que...

 

Axastémenes arrebenta o crânio de encontro às traves da galé e poupa-se de novo discurso de Lucius.

 

Diálogo de Lucius com o centurião da galé:

 

Centurião, expulsando Lucius da galé debaixo de safanões:

 

- Vai-te a messalina que te gerou! Pensa que escravo nasce em árvore?

 

Lucius, resignado, desfez-se de todos os seus bens materiais, indenizou o centurião e passou a ter uma vida ascética, buscando iluminação para poder propagar as verdades que conhecia.

 

Passados alguns anos no deserto, outros peregrinando por aldeias, Lucius percebeu que a humanidade não estava preparada para conhecer a verdade. Decidiu que deveria construir uma série de regras práticas, um códice, uma tábua de leis santas, inexplicáveis e dogmáticas, mas o único caminho para a verdade. Seguindo seus "provérbios algorítmicos", Lucius prometia aos fieis que chagariam a paz interior e material, mesmo sem compreender a verdade. Porque:

 

O caminho é misterioso, mas a regra é prática. (quarta Verdade do terceiro Oráculo da sétima Epístola do oitavo Livro de Lucius, O Nascido Iluminado.).

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 Escrito por Saulo Cachaça às 10h28
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Sua religião foi um sucesso, teve milhões de seguidores, erigiu templos magníficos, fez proliferar escolas de sacerdotes. Uma estrutura hierárquica se formou, rituais foram sacramentados, vestimentas e utensílios sagrados padronizados.

 

Sua morte misteriosa foi o início de uma nova era.

 

Rotas de peregrinação foram estipuladas, nações e povos devastados em nome das “verdades algorítmicas”.

 

Lucius profetizou que com o passar dos séculos suas palavras seriam quase totalmente esquecidas. Novas religiões seriam criadas e muitos dogmas aceitos como verdades inexplicáveis, disseminando pela Terra uma variedade de rituais com muita pompa, sacrifícios humanos, orgias, meditação, cristais, feitiçaria e outros desvios heréticos. Aproveitando-se da credulidade das gentes,  locupletar-se-iam os falsos profetas, servos, arautos, sacerdotes ou qualquer outra denominação que adotassem.

 

Mas Lucius deixou uma mensagem para os aflitos que viessem a ver e viver as provações do caos do “final das temporadas”, a última verdade de seu Códice dos Setenta Mil Provérbios Algorítmicos Para Iluminação Da Alma E Do Corpo:

 

Depois que se passarem mil temporadas, retornarei do mundo das verdades superiores para punir os que macularam minhas palavras e santificar os que as seguiram. Toda verdade será revelada! Faz deste modo, seguidor fiel: Enquanto esperardes o retorno do Nascido Iluminado, faça-o sentado!

FIM

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 Escrito por Saulo Cachaça às 10h27
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