O DIREITO DE COMER LIXO

 Acredito no direito de qualquer um ganhar dinheiro honestamente. Encher as burras de metal sonante é um velho sonho que compartilho com quase a totalidade dos humanos viventes, confesso. Não cabe aqui destilar o que é honestidade, já o fizeram filósofos e moralistas, tomemos a palavra pelo que nos transmite de supetão, sem análises inócuas.

 

Existe o capitalista que enriquece vendendo refrigerantes carbonatados a base de cola. Existe o refinado enólogo que enriquece vendendo champanha de receita centenária. (Se pudesse só beberia champanha, mas tenha a tendência de tomar coca-cola em tardes escaldantes).

 

Alguém recrimina o primeiro capitalista mais que o segundo? Pode até haver quem o faça, mas o entendimento geral é de que os dois não estão a fazer nada de errado. (Não levaremos em conta, neste momento, aleivosias sobre aculturação dos povos periféricos, globalização e, muito menos - por favor! -, os malefícios do álcool).

 

Agora, tomemos um exemplo menos clássico de bem de consumo: um livro. Não teria o mesmo direito de enriquecer o escritor de novelas policiais, romances melosos ou historietas místicas com magos (sejam os magos pré-adolescentes ou peregrinos), quanto o ficcionista de conteúdo psicológico, que “desnuda a alma humana” ou “põe a mostra toda miséria da consciência inata de ser e existir”?

 

É claro que tem. Se pudesse fazer o que o Paulo Coelho fez, faria. E faria logo, para poder tomar champanha em tardes escaldantes e nunca mais na vida arrotar coca-cola. Mas nunca li um livro dele, ao contrário da coca-cola, que aprecio eventualmente em tardes escaldantes.

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 Escrito por Saulo Cachaça às 09h55
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Aos puristas que se arrepiam nas cadeiras ao ouvir isso, algumas palavras de alívio: Os Harry Potter da vida não passam de lixo palatável sabor artificial de literatura, mas ninguém é obrigado a não gostar de lixo. Porcos comem lixo e não devemos deitar pérolas aos porcos.

 

Mas existe um limite para tudo, como nos ensinaram os professores de matemática quando tínhamos uns quinze anos de idade. Só apreciam ração para porcos, os porcos. Sem porcos, a ração se tornará “não competitiva no mercado globalizado”. O que é preciso, urgente (aqui, creio, empreguei a palavra com propriedade, caso raro!), é evitar que os humanos se transformem em porcos. Porque humanos apreciam ração para humanos, querem conhecer “os recônditos de sua alma”, “os mistérios da existência” ou “a dualidade intrínseca e imanente do ser que conhece que é”.

 

Livros não transformam humanos em porcos. Para transformar humanos em porcos é preciso alimentá-los aos poucos, do berço, com uma sutil ração que se presta as duas espécies. Esta ração, fruto de anos de pesquisa comportamental dos capitalistas empreendedores (alguns dos quais invejo), normalmente vem travestida de sandalhinha com cheiro de chiclete, de CD da gatinha seminua, de chocolatinho Skrants!, ou de parque da Xuxa. Com uma dieta contínua destas porcarias, o humano vai aos poucos perdendo a capacidade de digerir outra coisa que não seja exclusivamente suína.

 

Quando chega a ponto de ler livros, o porco já não tem salvação, está destinado ao abate ou a reproduzir leitõezinhos em cativeiro.

 

E.B.!

FIM

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 Escrito por Saulo Cachaça às 09h54
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